sábado, 15 de novembro de 2014

Marcha

A caminhada prosseguia resoluta no domingo pela manhã. A grande avenida estava praticamente vazia. Eram cerca de cem pessoas entre adultos, jovens e crianças no colo dos pais. Ao longe um carro surgiu. A caminhada vagarosa. O veículo lentamente de encontro à mesma. Os cânticos, frases e palavras continuavam. O carro também. Os primeiros da marcha diminuíram a velocidade dos passos. O efeito se projetou aos demais. Não identificavam ninguém dentro do carro. Vacilantes, os que estavam à frente avançavam. Os demais os seguiram. O veículo também preservou seu curso. Agora, avistavam a parte interior do carro. Parecia não haver ninguém. Aproximaram-se mais. Identificaram que o banco dianteiro do carro, do lado do motorista, estava inclinado totalmente para trás. O carro parou. A marcha também. No lugar do motorista enxergaram algo como roupas que se mexiam. Parecia estar sobre a barriga de quem dirigia. A marcha emudeceu, do início ao fim, em um efeito cascata. Do lado do motorista a porta se abriu. Braços vagarosamente colocaram, entre a porta e o carro, um volume de roupas e panos que se moviam brandamente. A marcha estática. Agora, todos presenciavam que dentro do automóvel, uma pessoa estava deitada até o ponto onde pudesse ter o mínimo de visão para dirigir. O carro partiu de forma acelerada. Os primeiros da fila cercaram o volume deixado pelo motorista. Os demais seguiram os primeiros. Um grande círculo se formou no entorno do embrulho de roupas deixado pelo misterioso carro. Novamente, os primeiros chegaram bem próximos e desfizeram parte das roupas e tecidos daquele embrulho. Foi ali então que viram o rosto do bebê. O corpo se debatendo contra aquelas muitas roupas e pequenos lençóis que lhe incomodavam os movimentos. Todos incrédulos. Passaram-se minutos. O choro intercalado com sussurros e gemidos do recém-chegado era o único som. Então, os que estavam mais próximos se afastaram. Assumiram novamente as primeiras filas da marcha. E os demais sem questionar fizeram o mesmo. A marcha pô-se a caminhar sem pestanejar. Outra vez, os cânticos pela paz e os louvores em defesa da família repetidamente tomaram conta da avenida.


(Luiz Alberto Cassol / novembro de 2014.)